MÃOS DADAS


Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

CARLOS DRUMMOND ANDRADE


RECEITA DE ANO NOVO



Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, 
remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, 
se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? passa telegramas?) 
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas 
nem parvamente acreditar que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, 
eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

CARLOS DRUMMOND ANDRADE


EU QUERO MAIS... QUERO ASAS!

foto de passatemp0 em 21/09/11

Sigo a vida conforme o roteiro, sou quase normal por fora, pra ninguém desconfiar. Mas por dentro eu deliro e questiono. Não quero uma vida pequena, um amor pequeno, um alegria que caiba dentro da bolsa. Eu quero mais que isso. Quero o que não vejo. Quero o que não entendo. Quero muito e quero sem fim. Não cresci pra viver mais ou menos, nasci com dois pares de asas, vou aonde eu me levar. Por isso, não me venha com superfícies, nada raso me satisfaz. Eu quero é o mergulho. Entrar de roupa e tudo no infinito que é a vida. E rezar – se ainda acreditar – pra sair ainda bem melhor do outro lado de lá.
Fernanda Mello


DOCE FONTE DE VIDA

Nem todos os mal-entendidos, mágoas e brigas se dão porque somos maus, mas por problemas de comunicação. Porque até a morte nos conheceremos pouco, porque não sabemos como agir. Se nem sei direito quem sou, como conhecer melhor o outro, meu pai, meu filho, meu parceiro, meu amigo – e como agir direito? (...) Somos todos pobres humanos, somos todos frágeis e aflitos, todos precisamos amar e ser amados, mas às vezes laços inconscientes enredam nossos passos e fecham nosso coração. A balança tem de ser acionada: prevalecem conflitos ásperos e a hostilidade, ou a ternura e aqueles conflitos que ajudam a crescer e amar melhor, a se conhecer melhor e melhor enxergar o outro? O olhar precisa ser atento: mais coisas negativas ou mais gestos positivos? Mais alegria ou mais sofrimento? Mais esperança ou mais resignação?
Cabe a cada um de nós decidir, e isso exige auto-exame, avaliação. Posso dizer que sempre vale a pena, sobretudo vale a pena apostar quando ainda existe afeto e interesse, quando o outro continua sendo um desafio em lugar de um tédio, e quando, entre pais e filhos, irmãos, amigos ou amantes, continua a disposição de descobrir mais e melhor quem é esse outro, o que deseja, de que precisa, o que pode – o que lhe é possível fazer.
Em certas fases, é preciso matar a cada dia um leão; em outras, estamos num oásis. Não há receitas a não ser abertura, sinceridade, humildade que não é rebaixamento. Além do amor, naturalmente, mas esse às vezes é um luxo, como a alegria, que poucos se permitem.
Seja como for, com alguma sorte e boa vontade a alma do outro pode também ser a doce fonte da vida.

LYA LUFT


VOCE É FILHO DA LUZ


Nosso medo mais profundo
não é o de sermos inadequados.
Nosso medo mais profundo
é que somos poderosos além de qualquer medida.
É a nossa luz, não as nossas trevas,
o que mais nos apavora.
Nós nos perguntamos:
Quem sou eu para ser Brilhante,
Maravilhoso, Talentoso e Fabuloso?
Na realidade, quem é você para não ser?
VOCÊ É FILHO DO UNIVERSO!.
Se fazer pequeno não ajuda o mundo.
Não há iluminação em se encolher,
para que os outros não se sintam inseguros 
quando estão perto de você.
Nascemos para manifestar
a glória do Universo que está dentro de nós.
Não está apenas em um de nós: está em todos nós.
E conforme deixamos nossa própria luz brilhar,
inconscientemente damos às outras pessoas
permissão para fazer o mesmo.
E conforme nos libertamos do nosso medo,
nossa presença, automaticamente, libera os outros.

Nelson Mandela


INDICATIVOS



A honestidade é uma imitação: a virtude é uma originalidade. Somente os virtuosos possuem talento moral e é obra sua qualquer ascensão para a perfeição; o rebanho se limita a seguir seus passos, incorporando à honestidade trivial o que antes foi virtude de poucos. E sempre rebaixando-a. 

Ser honesto implica em se submeter às convenções comuns; ser virtuoso significa frequentemente ir contra elas, expondo-se a passar como inimigo de toda moral, quando apenas é contra certos preconceitos inferiores. Sua virtude consiste em resistir contra os preconceitos dos outros. Se pudéssemos viver entre dignos e santos, a opinião alheia poderia nos evitar tropeços e quedas; mas é covardia, vivendo entre 'hipócritas', rebaixar-se ao nível comum com medo de atrair suas iras. Fazer como todos fazem pode implicar em concordar com o indigno; a condição do processo moral é resistir ao descanso comum e adiantar-se ao seu tempo, como em qualquer outro progresso.

Não é o homem moralmente medíocre - o honesto - que determina as transformações da moral. São os virtuosos e os santos, que não se confundem com ele. Precursores, apóstolos, mártires, inventam formas superiores do bem, ensinam-nas, pregam-nas, impõem-nas. Toda moral futura é um produto de esforços individuais, obra de indivíduos excelentes que concebem e praticam a perfeição inacessível ao homem comum. Nisso consiste o talento moral, que forja a virtude, e o gênio moral, que implica a santidade. Sem esses homens originais não seria possível conceber a transformação dos costumes: conservaríamos os sentimentos e paixões dos primitivos seres humanos. Toda ascensão moral é um esforço do talento virtuoso para a perfeição futura; nunca é uma condescendência passiva pelo passado, nem uma simples acomodação ao presente.

Os virtuosos não são iguais aos santos; a sociedade opõe vários obstáculos a seus esforços. Pensar a perfeição não implica em praticá-la totalmente; basta o firme propósito de ir em sua direção. Os que pensam como profetas podem se ver obrigados a proceder como filisteus em muitos atos. A virtude é uma tensão real em direção ao que se concebe como perfeição ideal.

O progresso ético é lento, mas seguro. A virtude arrasta e ensina; os homens se resignam a imitar alguma parte das excelências que os virtuosos praticam.

Cada um dos sentimentos úteis para a vida humana engendra uma virtude, uma norma de talento moral. Há filósofos que meditam durante longas noites insones, sábios que sacrificam sua vida nos laboratórios, patriotas que morrem pela liberdade de seus concidadãos, altivos que renunciam a qualquer privilégio que tenha por preço a dignidade, mães que sofrem a miséria defendendo a honra de seus filhos. O homem medíocre ignora essas virtudes; limita-se a cumprir as leias por temor às penalidades que ameaçam quem as viola, guardando a honra para não arrastar as consequencias de perdê-la.

José Ingenieros


RESGATE SEUS AFETOS


Procure seus "desaparecidos", resgate seus afetos. Aprenda com quem tiver algo a ensinar, e ensine algo àqueles que estão engessados em suas teses de certo e errado. Troque experiências, troque risadas, troque carícias. Não é preciso chegar num momento limite para se dar conta disso. O enfrentamento das pequenas mortes que nos acontecem em vida já é o empurrão necessário. Morremos um pouco todos os dias, e todos os dias devemos procurar um final bonito antes de partir.


Martha Medeiros


O CAMINHO QUE EU ESCOLHI



‎O caminho que eu escolhi é o do amor. Não importam as dores, as angústias, nem as decepções que vou ter que encarar... Escolhi ser verdadeiro. No meu caminho, o abraço é apertado...O aperto de mão é sincero. Por isso, não estranhe a minha maneira de sorrir, de te desejar o bem. Eu sou aquela pessoa que acredita no bem, que vive no bem e que anseia o bem. Por isso, não estranhe se eu te abraçar bem apertado, mesmo que seja só em pensamento. Se eu me emocionar com a sua história, se eu chorar junto com você, afinal de contas, somos gente e gente que fez a opção pelo bem. É assim que eu enxergo a vida. E é só assim que eu acredito que valha a pena viver. Viver com emoção, com verdade e com amor.

Paulo Roberto Gaefke


EU ADORO VOAR

Já escondi um amor com medo de perdê-lo, já perdi um amor por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amavam, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade...
Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo.
Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram...
Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? Eu adoro voar!

CLARICE LISPECTOR


NADA SABEMOS DA ALMA



É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!
Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.

Fernando Pessoa